
Passava por campos nunca vistos. Sua presença assustava aqueles que a viam. Distante de tudo e de si mesma, evitava todo sentimento que lhe fizesse sentir humana. Estava pronta para desferir sobre o mundo o seu mais forte golpe, aquele que guardara antes mesmo de nascer, reservado para o momento em que viesse a sentir com mais força o sangue correr em suas veias.
Resgatava no vento as suas memórias, um passado que copiava seu presente ao mesmo passo que revelava o seu futuro. Suas mãos estavam fechadas, sedentas por um impacto contra o peito dessa que, agora sentada, estendia suas pernas em posição de descanso.
Incontrolável, pensava ela. Não sabia o que era estar ali. Então, cansada adormeceu na grama molhada daquele campo. De certo, sentiu o peso de tanta repressão conta si.
Adormeceu, sonhou, e sonhando sentiu a sua vida. Sentiu o fio que a unia à sua alma. Percebeu que eram separadas e que precisavam estar juntas. Então, nesse sonho, viu que caminhava ao lado de um rio. Parou frente a ele e, juntando as suas mãos, apanhou a sua água e tomou. Lavou seu rosto e ao abaixar-se para pegar mais água, percebeu que podia enxergar a sua face ali revelada. O rio parecia lhe mostrar uma outra pessoa. O que ela via a encantava. Lembrou Narciso, lembrou sir Lancelot ao olhar paro o lago e ver sua face. Lembrou, o que de fato era o mais importante, de lembrar-se de si mesma.
O que era sonho passou a ser real. Ao acordar caminhou mais um pouco e encontrou o mesmo rio que havia sonhado. Correu ao seu encontro. Diferente do sonho quis mais. Despiu-se e entrou em suas águas. Sentia-se viva, controlava seus movimentos com mais coordenação. decidiu se aprofundar, e ao fundo só escuridão. Decidiu voltar.
Agora, todos os dias ela ia de encontro ao rio. Sempre que mergulhava queria ir mais fundo. Sempre que ia mais fundo, mais leve subia.
Decidiu, então, tornar-se mais pesada para ir mais abaixo. Dessa vez, entrou no rio vestida e com muitas pedras nos bolsos de seus vestidos, queria tocar o fundo. E assim foi feito. Ao chegar no limite, livrou-se das pedras e voltou. Mas, mesmo voltando à margem sentia-se imersa. Percebeu que havia encontrado face a face a sua alma, descobriu que no escuro estava o que procurava. Descobriu que o que estava embaixo era o mesmo que estava em cima. Descobriu que havia se descoberto.
